Você pode não acreditar, mas quase fiquei vice-campeão daquele torneio relâmpago, realizado em Araçatuba. Foram cinco rodadas.

 

Na primeira, dei uma bobeada histórica.

Tava totalmente ganho de um cara magrinho, de óculos, um tal de Jorginho Salmão, que logo de início perdeu uma pedra.

Ele deu uma, pensando que ia tomar duas, mas não era bem assim.

Eu tomei a pedra do outro lado.

Embora não demonstrasse, ele deve ter ficado muito nervoso, porque começou a jogar rápido e veio pra cima com tudo. Além disso, ficava resmungando.

Deu mais uma pedra e mais outra.

Deu sorte, não sei como foi, mas me de repente tomou quatro pedras numa única jogada e além de tudo fez dama por pura sorte.

Nunca deveria ter perdido essa partida: três pedras a mais.

Até agora não acredito.


Na segunda rodada, joguei com um tal de Oriel, lá de São Caetano do Sul, que entrou atrasado no torneio.

O cara jogava bem, mas demorava muito pra jogar e você sabe que eu não tenho muita paciência.

Foi, foi e no fim fiquei com duas pedras a menos.

Ah é, não tinha mais nenhuma para mexer, onde jogasse perdia. Joguei pra ver se ele bobeava. De repente ele dava uma cochilada, né!

Não adiantou, na hora que ele ia tomar minha última pedra, abandonei. Acho chato ficar a zero.

 

Na terceira rodada joguei com um tal de Bié, que nem apareceu pra jogar.

Acho que ficou com medo.

 

Na rodada seguinte, joguei com uma menininha de uns sete ou oito anos de idade.

Confesso que tive medo. Imagine perder para uma criança, ainda mais sendo mulher.

Eu nunca mais ia jogar.

Ela começou jogando bem, mas depois começou a errar. Não sabia as regras muito bem.

Uma hora ela bobeou, e eu ganhei.

Ela esticou a mãozinha e me deu parabéns. Fiquei até com dó, mas fazer o quê, jogo é jogo.

 

Na quinta partida, era a última, joguei com um tal de Norival da França, que tava bravo, porque perdeu, na rodada anterior, uma partida ganha e empatou outra, também ganha, segundo o que ele falou.

Eu sei bem o que é isso, mas eu acho que ele me enrolou, saía toda hora do tabuleiro.

Acho até mesmo que ia pedir ajuda pros outros ou então ia consultar algum computador escondido.

Pensei em denunciar para o juiz, mas você sabe que eu não gosto de confusão.

Fui ficando nervoso e comecei a errar. Acabei perdendo.

Se não fosse a irritação, o jogo seria outro, mas fazer o quê? Vivendo e aprendendo.

O campeão parece que foi um tal de Augusto Amin Kar, acho que o nome é esse.

O magrinho esquisito da primeira rodada ficou vice, com oito pontos.

Falam que a sorte não ajuda, mas não é bem assim.

Se eu não tivesse bobeado contra ele, seria eu que estaria lá, vice-campeão.

Não vejo a hora de jogar outro torneio.

Agora já estou bem mais experiente.

Quem viver verá!

 

(Com conhecimento de causa)

 

Depoimento de um quase vice-campeão...